A feijoada perfeita
Por Júlia Rachkorsky, para Condomínios e outras paixões
Se existe um prato que pode ser considerado a alma da culinária brasileira, esse prato é a feijoada. Mais do que uma simples combinação de feijão preto e carnes de porco, a feijoada é um ritual, uma celebração, um símbolo da nossa identidade cultural. E para o nosso carnívoro urbano, é a comida predileta, a tradução perfeita do que ele entende por uma refeição de respeito.
A história da feijoada é tão rica e complexa quanto o seu sabor. A versão mais difundida, e também a mais romantizada, é a de que o prato teria nascido nas senzalas, durante o período da escravidão. Os escravos, segundo essa narrativa, aproveitavam as partes do porco que eram desprezadas pelos senhores de engenho – como orelha, rabo e pé – e as cozinhavam com feijão preto, criando um prato substancioso e saboroso. No entanto, historiadores da gastronomia, como Carlos Alberto Dória, contestam essa versão. Para eles, a feijoada brasileira seria uma evolução de pratos europeus, como o cozido português, que foram adaptados ao longo do tempo com ingredientes e técnicas locais.
Independentemente de sua origem, a verdade é que a feijoada se consolidou como um prato nacional, presente em todas as regiões do país, com suas variações e particularidades. A primeira menção oficial ao termo “feijoada à brasileira” data de 1827, em um anúncio de um hotel em Recife. De lá para cá, o prato ganhou o coração (e o estômago) dos brasileiros, tornando-se um clássico dos almoços de sábado e das reuniões de família.
A feijoada perfeita, segundo os puristas, exige tempo, paciência e ingredientes de qualidade. O segredo começa na escolha das carnes. A costela, o lombo, a linguiça, o paio e a carne-seca devem ser dessalgados com antecedência, em um processo que pode levar até 24 horas. Cada carne tem o seu tempo de cozimento, e o mestre-cuca precisa ter a sensibilidade de adicioná-las à panela no momento certo, para que todas atinjam o ponto ideal de maciez.
O feijão preto, por sua vez, deve ser cozido lentamente, em fogo baixo, para que o caldo engrosse e absorva todo o sabor das carnes. O tempero é um capítulo à parte. Alho, cebola, louro e um toque de pimenta são essenciais para dar o toque final. E, claro, não se pode esquecer dos acompanhamentos, que são tão importantes quanto o prato principal: arroz branco soltinho, couve refogada no alho, farofa crocante, torresmo pururuca e laranja em fatias, para ajudar na digestão e equilibrar a gordura.
Para o nosso entrevistado, a feijoada é mais do que uma refeição; é uma experiência sensorial completa. É o aroma que invade a casa, a visão das carnes desmanchando, o som do torresmo estalando, o sabor que explode na boca. É a comida que conforta, que aquece, que reúne as pessoas em torno da mesa. É a prova de que, na gastronomia, assim como na vida, as melhores coisas são aquelas feitas sem pressa, com amor e com alma.